
Decifrando o enigma de Santa Catarina, estado inspirado nos EUA e orientado à indústria
Com apenas 1,3% do território e 3,4% da população nacional, SC tem a maior diversidade econômica do Brasil

Santa Catarina é um estado que na história recente do Brasil se destaca por unir prosperidade econômica, coesão social e gestão pública. Embora ocupe apenas 1,1% do território nacional, tornou-se uma exceção no mapa brasileiro: é o segundo estado mais competitivo e mais industrial do país, atrás apenas de São Paulo; o mais seguro; líder em indicadores de desenvolvimento humano, educação básica e geração de empregos industriais per capita — além de grande exportador.
Nos últimos anos, destacou-se também como o estado que mais recebeu imigrantes: 500 mil novos moradores, superando os 180 mil que foram para São Paulo . Santa Catarina pode parecer, aos olhos desatentos, uma anomalia — um enigma — mas é, na verdade, fruto de uma construção histórica singular e deliberada.
Ao mesmo tempo, tem sido retratado, no ambiente polarizado da política nacional, como um estado “frio” e de direita. Mas qual é, afinal, a verdade?
É nesse ponto que o chamado “excepcionalismo catarinense” se revela: não apenas como fenômeno estatístico ou econômico, mas como expressão de um etos civilizatório construído ao longo de décadas — inspirado, de forma surpreendente e deliberada, no modelo norte-americano, por ninguém menos que Dom Pedro II.
O imperador e a república americana
Pouco reconhecido hoje, Dom Pedro II foi um dos monarcas mais respeitados pelos Estados Unido s no século XIX. Durante sua visita à Filadélfia, em 1876, por ocasião do centenário da independência americana, foi recebido com honras por Ulysses S. Grant, então presidente dos EUA. Seu prestígio era tal que chegou a receber votos simbólicos para a presidência americana — uma curiosidade histórica que ilustra a admiração que despertava no jovem país. Nosso imperador era um republicano.
Mas a aproximação do imperador com os EUA ia além da diplomacia. Ele via naquela república em expansão um modelo de desenvolvimento distinto: baseado na liberdade econômica, na propriedade privada familiar, na disciplina social, na educação pública e no trabalho livre. O “excepcionalismo americano”, descrito por Alexis de Tocqueville em Democracia na América, oferecia um contraponto radical aos latifúndios escravocratas.
Foi no Sul do território nacional — ainda um vazio demográfico de clima temperado — que Dom Pedro II aplicou seu projeto alternativo de país. A ocupação do território com imigrantes europeus, livres da herança colonial escravista, constituiu uma tentativa concreta de implantar um novo modelo de civilização nos trópicos.
A gênese do Brasil Novo
A colonização do Sul do Brasil — primeiro com açorianos, depois com italianos, alemães, eslavos e nórdicos — atendeu não apenas a interesses econômicos, mas também a preocupações geopolíticas: a defesa da fronteira frente às pretensões da Espanha e da Alemanha. Mas, acima de tudo, foi uma tentativa de fundar o “Brasil Novo”, como o chamou Darcy Ribeiro — a quem eu tive a honra de conhecer pessoalmente.
Um Brasil que não brotava das senzalas nem das oligarquias rurais, mas da pequena propriedade, do trabalho assalariado, do associativismo e de uma cultura protestante ou católica austera, voltada à educação e ao mérito. A miscigenação se deu então de forma distinta: entre europeus recém-chegados e brasileiros de origem ibérica, indígena, cabocla e afrodescendente — mas sem o peso institucional da escravidão nas estruturas produtivas. E, nem o ressentimento.
Santa Catarina foi o núcleo mais expressivo dessa construção. As colônias não escravocratas, organizadas em cooperativas, com base na pequena e média empresa, moldaram um modelo de produção descentralizado e dinâmico. Diferente do Sudeste — onde o Estado sempre teve protagonismo econômico —, em Santa Catarina o motor do progresso foi o cidadão e o empreendedor. O estado é, há anos, o que mais possui empresas per capita no Brasil.
Esse padrão cultural e econômico, compartilhado com o norte do Rio Grande do Sul e partes do Paraná, mais tarde se estenderia ao Oeste dos estados sulinos e ao Centro-Oeste — e até a partes do Norte e do Nordeste brasileiro. Esse novo vetor migratório e produtivo pode ser chamado de “Brasil Novíssimo”.
O Brasil Novíssimo: o Agro como extensão do Sul
A narrativa oficial sobre a expansão do agronegócio no Centro-Oeste frequentemente enfatiza a modernização tecnológica e a ocupação de novas fronteiras. Mas há um elemento humano crucial: a migração.
Agricultores e empresários rurais vindos de Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Paraná não levaram apenas tratores e sementes, mas também um modo de vida: cooperativismo, ética do trabalho, pragmatismo e espírito comunitário. Assim como os norte-americanos conquistaram o Oeste com carroções e cowboys, os brasileiros o fizeram com caminhões e tecnologia sobre estradas de barro.
Essa “colonização interna” gerou o milagre do Cerrado: a transformação de terras ácidas e inférteis em celeiros do mundo. O DNA produtivo da nova fronteira agrícola brasileira é essencialmente sulista — fruto das colônias idealizadas por Dom Pedro II.
Uma cultura política pragmática
Santa Catarina também é mal compreendida politicamente. Classificada como “conservadora” em razão de seus resultados eleitorais recentes, o estado teve, na verdade, uma trajetória plural. No processo de redemocratização, votou majoritariamente no MDB em oposição ao regime militar, e deu ao PT a gestão de suas principais cidades em diferentes momentos — de Florianópolis a Chapecó.
A guinada à direita após 2013 reflete mais o cansaço com os escândalos de corrupção e a ausência de retorno fiscal do que uma radicalização ideológica. Até então, o eleitorado catarinense era predominantemente socialdemocrata e reformista, com inclinação ao PSDB.
Mais do que ideologia, prevalece em Santa Catarina uma cultura de resultados. O catarinense é pragmático, cobra desempenho dos gestores públicos e rejeita centralismos ineficientes. O sentimento recorrente é de exploração por Brasília: o estado contribui dez vezes mais ao orçamento federal do que recebe em investimentos — sendo o segundo maior perdedor na balança fiscal, atrás apenas de São Paulo.
O estado que cresceu sem mercado interno
Outro traço do excepcionalismo catarinense é ter desenvolvido uma economia orientada a indústria, à exportação e à logística, e não dependente do consumo interno. Com seis portos, um setor industrial diversificado, 15 polos tecnológicos (especialmente em Florianópolis, Blumenau e Joinville) e um turismo que vai da neve à praia, Santa Catarina transformou sua escala reduzida em vantagem comparativa.
Balneário Camboriú e Itapema, com seus arranha-céus futuristas, despertam tanto admiração quanto críticas — como se sucesso e estética fossem pecados num país desigual. Mas essas cidades representam apenas 12 km de um litoral de 550 km, com reservas naturais como o Parque Estadual do Acaraí e praias ainda selvagens.
Florianópolis, por sua vez, é Capital Nacional das Startups, Cidade Criativa da Gastronomia pela Unesco, e tem mais de 60% do território composto por áreas de preservação. Segundo a Oxford Economics e o WTTC, o estado está entre os mais diversos do mundo em termos de vocações turísticas e produtivas, muitos povos e muitas geografias — o que contraria o clichê da monocultura política e econômica. Como me disse, certa vez , o querido amigo Domenico De Masi, há um atraso e um retrocesso cultural em curso que impede o reconhecimento dessa complexidade.
Empresas como WEG, Hering, Karsten, Tupy, Aurora, Tigre, Perdigão e Sadia nasceram em solo catarinense. Diferentemente de São Paulo, que contou com capital externo, mercado interno robusto e os excedentes do café, Santa Catarina construiu sua base produtiva com capital local, em comunidades a partir de micros , pequenas e médias empresas .
Mesmo com baixo crescimento vegetativo, o estado atrai migrantes do país inteiro — gaúchos, paranaenses, nordestinos, venezuelanos e haitianos — mantendo-se vibrante e em expansão.
Desafios à frente
Apesar de todos esses avanços, os gargalos são reais. A infraestrutura viária e aeroportuária é deficiente. Faltam ferrovias, rodovias estruturantes, saneamento e conectividade aérea regional. O crescimento urbano pressiona os serviços públicos. A burocracia federal, sobretudo na área ambiental, tem sido um obstáculo constante.
A previsão do IBGE indica que Santa Catarina pode ultrapassar o Rio Grande do Sul em PIB e população até 2046, e o Paraná até 2056. O que testará, na prática, a resiliência do seu modelo diante das pressões da homogeneização nacional — como alertava o eco-conomista Ignacy Sachs, criador do conceito de desenvolvimento sustentável e defensor da valorização das experiências locais. Sobre Santa Catarina, atestou: existe o experimento catarinense .
Outro desafio é a sucessão geracional das pequenas e médias empresas familiares e sua adaptação à economia verde e digital. O que funcionou até aqui pode não bastar amanhã.
Uma lição de futuro
Santa Catarina representa, talvez, em parte, o Brasil que poderíamos ser: um “país” dentro do país, que valoriza o trabalho, respeita o mérito, cobra resultados e cultiva coesão social. Um povo que não espera soluções mágicas do Estado, mas tampouco tolera o abandono. Um povo que aposta na produção, na educação e na dignidade.
Não é ufanismo — é constatação. Santa Catarina não se vê superior, mas sim como trabalhador e coerente com sua história. Seu povo é simples, claro, hospitaleiro — e isso decorre de um profundo auto respeito. Isso se percebe no turismo .
O “excepcionalismo catarinense” não se resume a dados: é uma construção institucional, cultural e produtiva, fruto de um projeto visionário. É uma herança viva, difícil de reproduzir, mas digna de estudo e inspiração.
Como dizia Dom Pedro II: “governar é educar”. E, neste caso, também aprender. O Brasil tem muitas lições de sucesso em suas regiões. Uma das mais consistentes — e menos compreendidas — é Santa Catarina: um estado inspirado nos EUA nos trópicos, pensado por um grande imperador, e cultivado por gerações que fizeram dele uma referência silenciosa. Mas, hoje, cada vez mais visível.
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